sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Vida virtual versus vida real: Um falso dilema!

Texto do blogueiro Douglas da Mata, do Planície Lamacenta, falando que a internet não está tão distante do mundo real como muitos pensam, excelente! É mais um dos blogueiros aguerridos de Campos dos Goytacazes que orgulhosamente integram o movimento #RioBlogProg.

Motivado por um post do blog do Roberto Moraes, onde o antroopólogo Hermano Vianna trata da "ciberbalcanização" blogosfera, como um fenômeno que se expressa pela formação de guetos ultraradicais dispostos a encerrar em si mesmos uma visão de mundo intolerante e beligerante, que pode se tornar uma ameaça real a sociedade, resolvi tratar desse assunto.

Para começar, é preciso o aviso de sempre: Não se trata de um postulado acadêmico, visto que faltam as ferramentas teóricas para tanto, e assim temos aqui uma compilação de intuições. Uma análise empírica, desprovida de compromisso de comprovar a si mesma, ou de ser legitimizada como uma posição uniforme.

Optamos pelo título para resumir a idéia: A premissa de que há uma vida "virtual" oposta ou concorrente a vida "real" é falsa, em nosso entender! Afinal, por trás de laptops e personal computers(PC) existem pessoas que pensam, agem e interagem em seu ambiente, ainda que o filtro pelo qual possam falar e ouvir boa parte da informação que produzem e recebem seja a internet, através de suas máquinas. Para combater essa suposta "radicalização" e estreitamento de grupos em guetos "virtuais" há a necessidade de abolir esse conceito que dicotomiza a vida em ambientes estanques. Não é possível vida "virtual" sem vida, portanto, repetimos: essa premissa é falsa!

Logo, a internet é um meio de comunicação, que guarda distinções em relação a outros meios, e inúmeras possibilidades, mas que, no fim das contas, está sujeita as mesmas condições de temperatura e pressão que qualquer outro, como submissão a interesses, disputas por controle, enfim, todos os elementos que integram o processo de hegemonização descrito por Gramsci.

A efeito, se entendermos que a internet é um meio de comunicação com características próprias, mas com aspectos gerais inerentes a toda a atividade de produção, transmissão e apreensão de conteúdo(linguagem e cultura), o "perigo" alertado pelo Hermano deixa de ter uma cara tão surpreendente, mas não deixa de ser menos preocupante. Ora, o risco de "balcanização" é permanente em qualquer esfera de disputa de poder, ou de ação política, como preferirem, e não se pode mais delimitar exatamente onde começa essas esferas de disputa virtual, da esfera de disputa dita real.

Tomemos por exemplo duas conjunturas interligadas mas díspares: a nossa realidade local e o resto.

Poderíamos para facilitar o entendimento (e nosso raciocínio) sistematizar assim:


Fase da rejeição e do medo:

Há bem pouco tempo atrás, a internet, e em nosso caso particular, a blogosfera, era olhada como algo pouco crível, ou exótico. Chegamos a ter dirigentes partidários locais que diziam não ter tempo para lidar com a blogosfera (declarações do ex-presidente do PT/Campos, Hugo Diniz em entrevista a jornal local), e um político local classificou os blogueiros como desocupados. Na outra ponta, em viés mais amplo, a blogosfera sempre foi tratada como artigo de "elite", incapaz de mobilizar o que quer que fosse, ou de interferir de forma mais decisiva no jogo de disputa do poder.

Assim, hoje, nós temos uma situação surpreendentemente(para eles)oposta: A blogosfera tornou-se, por assim dizer, o melhor espaço para o debate político local, embora não o único, mas que determina pautas, e orienta o caminhar de diversos setores. E como isso se deu?

Ora, na medida que as campanhas políticas foram midiatizadas ao extremo, com a quase extinção da militância orgânica, seria de se esperar que o mais poderoso e democrático meio de comunicação disponível fosse onde a possibilidade de debate se expandisse mais rápido, até porque, ficou claro que os meios de comunicação tradicionais nesse país, e em boa parte do mundo, fiéis a sua natureza empresarial, tratavam de resguardar seus interesses junto aos grupos dominantes, em detrimento de sua capacidade de suscitar a polêmica ou o acesso a diversidade de informação. Comprometidos com modalidades do pensamento único, foram ultrapassados e perderam o lugar no campo da disputa da opinião.

Esse é um senão que gostaríamos de registrar: A luta entre mídia tradicional e virtual não existe, na proporção que esses dois "lados" lidam com coisas diferentes, pois vejamos:

A mídia tradicional sempre "vendeu" suas versões dos fatos como se fatos fossem, preocupadas em servir ao espectro ideológico das classes dirigentes e aproveitar os bons negócios que essa tarefa trazia como recompensa óbvia.

A blogosfera também "vende" suas versões, a questão principal é, no entanto, o descolamento, em sua maioria, dos grandes grupos econômicos e a possibilidade de contraditório imediato, que esfarela qualquer tentativa de mistificação. As redes de solidariedade que se formam na blogosfera são outro fator relevante, e apresentam mais diferenças com a mídia tradicional, onde a competição pela "primazia" do a informação, ou furo, é condição sine quae non para a sobrevivência.
Na blogosfera, o furo é desejável, mas a infinita gama de alternativas de temas, bem como a complementaridade, são insuperáveis em um mundo que deseja cada vez mais que os meios de comunicação apresentem posições claras e um debate amplo, na contramão da oligopolização do conteúdo promovida pela grande midia.

Os políticos e atores sociais "tradicionalistas" rejeitaram enquanto puderam a blogosfera, e cumpriram, às vezes, inocentemente, um papel que favorecia os grandes grupos de mídia que também diziam combater. A rejeição vinha junto com o medo, uma vez que o "novo" desafiava as velhas formas de controle que já tinham em seu poder.


A fase da desqualificação, do controle e  da censura:

Passada a fase do medo/rejeição, os meios tradicionais e os atores sociais "tradicionalistas" enpunharam a bandeira da desqualificação, como se a "falta de especialização" fosse uma permanente ameaça à qualidade da informação veiculada.

Escondiam, por óbvio, que a ausência de "qualificação específica" pode servir a vários propósitos, ou alguém se esqueceu que a voz do Brasil, o apresentador Cid Moreira, nunca foi jornalista, mas sua fala só era menos crível que o próprio verbo divino nesse país, durante os anos de chumbo e parte do reinício democrático?

Nessa esteira, engataram a tese de que a internet, por sua compleição, e a total falta de controle, permitiam a veiculação de ofensas a moral, manipulação e inverdade que poderiam ameaçar o convívio democrático.

Esqueceram de dizer que os grandes fatos que foram motivados por tais absurdos vieram, justamente, dos meios tradicionais, como a famosíssima edição do debate presidencial em 1989, a fantástica fábrica de escândalos do período atual, e as infrutíferas tentativas de manipulação da opinião pública nessa campanha eleitoral, como em todas as outras. Os grandes "assassinatos de reputação"(nas palavras do ilustre Nassif)não foram cometidos pela rede, ou pelo menos, não foram engedrados nesse ambiente, ainda que fossem por aqui repercutidos.

Aqui, nessa cidade, não foi a blogosfera, nem a grande rede que figuraram em sentenças judiciais como cúmplices de grupos políticos condenados por abuso de poder econômico.

E por que não? São os blogs mais "puros"?

Lógico que não, mas é a essência deles que os tornam passíveis de crédito e descrédito na mesma medida. É, por mais ilógico que pareça, o descontrole que permitiu o "autocontrole", em uma realização sublime do ideal liberal(lato sensu), que movia os camelôs e seus panfletos nas ruas da então revolucionária França do século 18.

Uma vez que enxergaram essa "qualidade perigosa", os atores sociais e os meios tradicionais passaram a reclamar um controle maior sobre a rede e a blogosfera, usando, de um lado, a estrutura arcaica judicial, e de outro o enfrentamento com poder de chantagem e coerção econômica junto aos seus parceiros e governantes, em um jogo de "morde e assopra", como se oferecessem a chance de "uma manipulação segura" a quem se sempre se serviu da deformação de opinião pública como arma política.
E o mais grave: A utilização desse aparato estatal normativo é anacrônica em si, porque, a bem da verdade, nunca serviu para controlar nenhuma forma da chamada "liberdade de imprensa", que sempre se opôs ao controle social, pôs e dispôs da realidade ao gosto de quem melhor lhe pagava, tendo no preço sempre incluído o passivo jurídico, caso alguém reclamasse, o que, raramente, acontecia. Temos aqui outra modalidade da hipocrisia nacional, praticada com gosto pela nossa grande mídia nativa. Controle nos olhos dos outros é sempre refresco.

Como esses métodos também faliram, passaram a uma "legitimação transversa", que trataremos a seguir.


A fase do espelho:

Ciente de que seria impossível vencê-los, a grande mídia decidiu recuperar o tempo perdido e criou ou se associou a grifes de internet e blogs, na tentativa de ocupar um terreno que começou a ver como importante e vital para sua permanência no jogo.
Como não eram mais os únicos a oferecer um único produto, encamparam os instrumentos, embora permanecessem fiéis aos mesmos interesses: controle e monopólio da informação.

À bordo de sua versões de blogs e com seus blogueiros orgânicos e, ou de aluguel, começaram e intensificam a campanha de formação de "seu" público, processo que traz em si um paradoxo forte:

Para se tornarem relevantes, precisam "carregar" na crítica ao ambiente e aos outros atores que enxergam como concorrentes, e mais, ao vetor político progressista que permitiu, ou melhor, institucionalizou a democratização do acesso a informação pela blogosfera,  e desta feita, precisam ampliar seu público, mas estreitam cada vez seu nicho de atuação em guetos de opinião ultraconservadora e radicalizada.

É esse processo que Hermano Vianna tenta simplificar em um conceito para tratar do assunto "da moda", mas que tem correlação e semelhança com todo e qualquer disputa política "normal".
Acuados pela perda de "prestígio, força e capacidade de intervenção", os grupos voltam-se a si mesmos, estipulam conceitos de identidade de grupo "fortes" e aprofundam seu isolamento, embora se digam "defensores da pluralidade de idéias e da própria liberdade de expressão".

Ele "rotula" de ciberbalcanização".

Esse fenômeno, porém, não é exclusivo de nossos tempos, nem da internet, embora a rede amplie os efeitos primários, como já dissemos, pela sua natureza de conectividade, capilaridade e rapidez.

A imagem refletida da blogosfera na grande mídia é real, mas como toda imagem refletida, tem sinal invertido, e se na blogosfera a informação flui, no seu equivalente da mídia tradicional, a informação reflui e sectariza o pensamento.


O antídoto:

A responsabilidade da blogosfera frente aos seus desafios é muito maior que parece. A do Estado e da sociedade civil idem. Se há uma trajetória de sectarização de grupos de opinião, que podem formular conceitos que ataquem, fisicamente, inclusive, os valores da convivência social, é urgente determinar uma interlocução com esses grupos, um caminho de volta, para que esse conflito não extrapole a instância conceitual e deixe de poder ser regulado e normatizado em novos paradigmas dessa convivência social.
Mais uma vez, cabem aos verdadeiros democratas a tarefa de estabelecer diálogo com quem não acredita nele. Não por medo ou subserviência, mas por pragmatismo democrático, haja vista que é nesse ambiente que tornarmos possível a realização daquilo que sonhamos: Um mundo melhor!

Primeiro passo seria abolir de vez essa falsa dicotomia entre vida real e virtual, sem que no entanto, deixemos de enxergar que há instâncias diferentes de ação política, com regras, etiquetas, valores e princípios diferentes, nunca opostos, mas sempre complementares. E cada ator decide qual sua maior chance de se tornar relevante, sem que para isso tenha que ter essa importância hierarquizada por quem, na verdade, deseja manter intactas as estrutras de poder que já detém e não deseja compartilhar.

PS:

E preparem-se todos, na esteira dessa disputa real, pois os governantes mais inteligentes já descobriram que a melhor forma de controlar a "velha mídia" é "alimentar" a blogosfera(mas essa visão tem limites, é claro), terá lugar uma disputa "muitíssimo mais real e concreta": a questão do financiamento, pois como sabemos, manter um blog é muito mais barato, logo, bem mais fácil de alocar verbas públicas de publicidade oficial, com chances bem maiores de atingir o resultado(propagandear)com mais eficência e eficácia. No fim, é sobre esse "controle" que trata a tentativa de enquadrar a blogosfera.

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